Uma nova Livros do Mal?

Pois é, eu já acho bom começar este post de modo meio polêmico, pra não ter problemas depois. Se vão rotular desse modo o trabalho da Não Editora, do Rio Grande do Sul, eu não sei. Gostaria muito que não, mas me parece inevitável. Se eu penso isso? Não, é claro que não. Mas me parece óbvio que a editora do cachimbo (símbolo da editora, belamente apropriado do Magritte) é a herdeira natural de um trabalho iniciado pela editora de Daniel Galera, Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla – o que não é pouco.

É claro que eu fui conferir.

Já pude ler, na íntegra, o romance de estréia de Antônio Xerxenesky, autor que, alguns anos atrás, já tinha sido recomendado a mim pelo Pedro Mandagará. No ano passado, pude ler o Mojo Book que ele escreveu, recontando o disco Come on die young, do Mogwai (do qual fiz, inclusive, a capa) e é mesmo muito bom. Também em 2007, li o seu bom conto O desvio, que integra a primeira coletânea Ficção de Polpa, que saiu pela fugaz editora Fósforo. Então, não foi surpresa quando me deparei com a orelha de Daniel Galera anunciando um faroeste com zumbis no romance de estréia de Xerxenesky, Areia nos Dentes. E é um livro bem bacana, rápido, mesclando ação no melhor estilo bang-bang à italiana e metalinguagem (quase, às vezes, uma metametalinguagem). Apesar de alguns problemas de revisão, coisa mais que natural numa estrutura pequena de publicação, o livro é uma estréia em narrativa longa superior à maior parte do que se vê por aí. Não é um livro perfeito, mas nem acredito que tenha sido concebido para isso. É uma idéia legal, que poderia dar um filme interessante (se não cair na mão de nenhum medalhão, que vai tentar impor a marca pessoal e tirar a espontaneidade que o livro tem de modo tão marcante). Eu assistiria.

Ainda estou lendo o segundo Ficção de Polpa e comecei o trocadilhista (e só por isso já tem o meu voto) A virgem que não conhecia Picasso. Mas, para uma editora que nasceu da dissidência de um trabalho anterior (quase uma característica sine qua non das pequenas editoras deste início de milênio), eles vêm mandando muito bem. O que os aproxima da LdM: a parceria entre os autores/editores, o formato, o cuidado gráfico, a idéia de rompimento e, muito provavelmente, a cultuada oficina do Assis Brasil – pela qual a maioria dos novos escritores gaúchos passou.

É também o caso da autora do novo lançamento da Não, Carol Bensimon. Agraciada com a polêmica Bolsa Funarte no ano passado, Carol é mais forte e melhor que esses disse-me-disses, pra sorte de toda a lisura do processo. Sua estréia foi com o compacto Sono, publicado de modo mais que independente há alguns anos. Apesar de já apresentar uma narrativa bem desenvolvida, ela melhorou bastante. O que me deixa bastante entusiasmado para ler Pó de parede, que já está chegando pelo correio. Carol é minha amiga? E daí? Acho bom que bons amigos que mandam bem consigam levar pra frente o que acreditam da vida. Isso, afinal, é o que move a todos, não é?

Mas tem um senão – sempre tem. Segundo o site da Não: Uma das palavras mais fortes da língua portuguesa, o ‘Não’ também é uma das mais pronunciadas e ouvidas no mercado editorial hoje em dia. É para esse ‘Não’ que a Não Editora diz ‘Não’: para tudo o que é convencional, comum, repetido e preestabelecido. Bem, chega a ser curioso que as capas da Não sejam tão comerciais, tão profissionais, tão padrão. Não é um erro, é claro que é um acerto, mas é um contrasenso com o discurso da editora – que, para sair do convencionalismo independente, acabou caindo em outro, o do mercadão. Não existe um quê de experimental nas capas, há muito formalismo e pouca ruptura. Basta ver as lindas capas que eu destaquei neste post. Mas a sensação de estranhamento, por exemplo, que eu tive com as ilustrações de Guilherme Pilla, pela Livros do Mal, ou nas capas do Joca Reiners Terron, pela Ciência do Acidente, não existem aqui. É a sensação clara de que a Não é a versão 2.0 do movimento de editoras independentes nacionais deste milênio: pronta para brigar pelo mercado com distribuição nacional (graças ao quase-apadrinhamento da filial de Porto Alegre da Livraria Cultura), pronta para aparecer, pronta para ser consumida e, o que é fundamental, lida.

A Não é a melhor e mais preparada editora independente nacional de que tenho notícia hoje em dia. E isso, meus caros, não é pouco. Só posso dizer que vocês ainda vão ouvir falar muito de Guilherme Smee, Rafael Spinelli, Samir Machado de Machado, Antonio Xerxenesky, Rodrigo Rosp e de quem mais se unir a eles. E tenho dito.

~ por Delfin em 23/06/2008.

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